Sou filósofo de formação e tenho lecionado filosofia nos últimos 20 anos em uma carreira paralela, como voluntário. No entanto, minha formação começou na engenharia; logo depois migrei para a administração e, finalmente, cheguei ao campo que hoje considero ser o maior impulsionador do pensamento estratégico. Além do meu MBA e das duas pós-graduações que concluí em duas brilhantes escolas de negócios do Reino Unido, devo confessar que Platão e Confúcio continuam sendo meus melhores amigos.
Se filosofia é a busca da sabedoria, então busquemos a sabedoria na estratégia e por meio dela.
Desde a compreensão mais simples de que todo esforço consciente para vencer é uma forma de estratégia até sua definição mais ampla como a disciplina da vitória — um pouco de ciência e muita arte — aplicável aos mais diversos contextos (militar, empresarial, político, esportivo etc.), proponho que mergulhemos um pouco mais fundo e exploremos algumas das ideias que a cercam.
Podemos delinear uma filosofia da estratégia a partir de quatro dimensões: Ontologia, Epistemologia, Metodologia e Axiologia. Essas dimensões são claramente inter-relacionadas, mas ainda assim podemos extrair algumas reflexões sobre cada uma delas.
Ontologia: que tipo de ser é a estratégia? A estratégia é um ser de relação com uma intenção de movimento. É um ser de relação porque não possui realidade em entidades isoladas; ela sempre emerge na interface entre dois ou mais agentes. E possui uma intenção de movimento porque, em termos aristotélicos, há sempre uma potência que busca atualizar-se em ato. Se houvesse plena satisfação com a situação presente, não haveria estratégia alguma.
Do ponto de vista epistemológico, podemos refletir sobre como o conhecimento estratégico é construído. Podemos considerar processos lógicos como dedução, indução e abdução. Mas devemos também reconhecer a importância da analogia, da metáfora e do pensamento simbólico.
Ainda no âmbito da epistemologia, há uma pergunta constante: afinal, o que é uma questão estratégica? É incorreto — ou, pelo menos, incompleto — responder como se isso dissesse respeito apenas às decisões da alta liderança. Prefiro definir uma questão estratégica de maneira mais intrínseca, isto é, em função do processo cognitivo envolvido, e não do tema em si. Assim, talvez devêssemos distinguir o pensamento estratégico não pelo cargo que alguém ocupa, mas pela forma como essa pessoa pensa e age.
As metodologias são abundantes. Infelizmente, porém, vemos com frequência todo esse campo ser reduzido a métodos e ferramentas. Não deveria ser assim. O pensamento estratégico enfraquece quando se torna excessivamente dependente de ferramentas. Elas deixam de ser meros instrumentos para ocupar o lugar do protagonista, que é, evidentemente, o próprio estrategista.
A axiologia da estratégia é provavelmente sua dimensão mais importante. Na verdade, trata-se de uma dimensão abrangente, pois os valores e princípios que sustentam o processo estratégico influenciam todas as demais. Ela nos conduz naturalmente aos temas da ética e da moral.
Imagine a combinação entre poder e ética. Você pode visualizar uma pessoa dotada de sólidos princípios morais, mas sem poder algum; dificilmente grandes resultados decorrerão apenas disso. Ou pode pensar naqueles líderes que possuíam enorme poder e, ainda assim, conduziram tantas vidas ao desastre justamente por lhes faltar uma base ética. Embora tivessem poder, provavelmente concordaremos que o mundo teria sido melhor se não o tivessem exercido da forma como o fizeram. Portanto, a condição ideal para um estrategista é reunir ambos: o poder de fazer as coisas acontecerem, associado a valores atemporais e universais que transcendem culturas, geografias e épocas.
Continuemos desenvolvendo esse tema. Estou escrevendo meu próximo livro, que se chama precisamente Filosofia da Estratégia. Ele será publicado em janeiro. Até lá, espero que você descubra novas camadas dessa fascinante disciplina — uma disciplina que é, ao mesmo tempo, ciência, arte e filosofia.
O último ponto que gostaria de mencionar — e de propor como reflexão final — também é de natureza ontológica, mas diz respeito mais especificamente ao que poderíamos chamar de teleologia da estratégia. Se estratégia é a disciplina da vitória, então devemos perguntar, antes de tudo: o que significa vencer? Não trate essa questão como algo trivial. Trabalhando com organizações dos mais diversos setores, percebi o quanto essa pergunta pode ser profunda — e surpreendentemente difícil de responder.
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