Não vou me referir aqui ao Pragmatismo como escola de pensamento. Em que pese minha admiração por William James e outros, quero falar dos ensinamentos e recomendações de alguns filósofos de diferentes épocas e de escolas bem distintas, mas que coincidem numa atitude muito prática quanto a como lidar com adversários.
Plutarco, em seu belo Como tirar proveito dos inimigos (De capienda ex inimicis utilitate) dá indicações elegantes. Mostra que a oposição é uma fonte de aperfeiçoamento para si mesmo.
É o menorzinho dos três livros, mas sua finura esconde sua fineza: degustamos ali a típica leveza e altivez e nobreza dos textos neoplatônicos.
Já Baltazar Gracián, no Oráculo Manual y Arte de la Prudencia, começa falando sobre genio e ingenio, “os dois eixos em torno dos quais reluzem os talentos”. Ele sugere conduzirmos as nossas coisas em suspense, entre um dos 300 ensinamentos que o livro propõe.
A Arte da Prudência é de leitura fácil e bem aplicável. Recheada de conselhos para as coisas da vida, vai além do trato com os inimigos - revela-se como um manual prático para a vida cotidiana.
Arthur Schopenhauer em A Arte de ter Razão, diz que “Aristóteles não determina o objetivo da dialética tão bem quanto eu [Schopenhauer]". Vale lembrar que o autor está escrevendo sobre “dialética erística”, ou simplesmente erística (arte da disputa).
Há um divertimento na leitura dos seus estratagemas p”ara vencer uma discussão mesmo que você não tenha razão”. Mas é claro que se trata de uma atitude de Sofistas. Retórica sem compromisso com a verdade.
Todo estrategista deve saber lidar com forças contrárias e, no melhor estilo marcial, usar a força do inimigo a seu favor. Quanto mais o adversário pressiona, pior para ele.
Acho que antes mesmo de perguntar como vencer, temos de perguntar por que e para que - o que signfica vencer é sempre a questão primordial em toda estratégia.
Gosto de ver sempre a possibilidade de que todos vençam, ao invés de, necessariamente, um ganhar e outro perder - sim, é uma combinação de idealismo com pragmatismo; por que não?
Mas às vezes é difícil mesmo. Dependendo do contexto, as opções podem ser bem limitadas.
O mestre da estratégia pode ampliar as possibilidades e imaginar diferentes rumos, ver mediante novos paradigmas. Assim, se você conseguir criar mais opções, suas escolhas também tendem a se enriquecer e aumentar as chances de sucesso.
Uma vez me foi ensinado que “o mundo é violento por falta de imaginação". Para refletir.
Retomando o ponto inicial, creio ser útil conceituar inimigo: para mim, não é o mesmo que adversário, rival, concorrente, competidor ou jogador.
Adversário vem do latim ad vertere e diz respeito a uma conduta que se opõe, que está contrária.
Rival é o que compartilha o mesmo rio, ou a margem do rio.
Concorrente é aquele que corre junto. Semelhante à competidor, aqueles que se dirigem ao mesmo ponto.
Jogador, claro, é simplesmente quem está jogando o mesmo jogo - com as mesmas regras (teoricamente, sendo respeitadas).
Inimigo é oposto de amigo. É, portanto, aquele que não ama.
De toda essa recapitulação etimológica, podemos dizer que não está fora de lugar você amar e ser amigo de seus adversário, rivais, concorrentes e competidores.
Numa pergunta: por que alguém se posicionaria como inimigo? O que está por trás dessa atitude? O que moveria essa pessoa? Quais as razões para o ódio?!
Como sigo mais Plutarco do que Schopenhauer, me apresento com uma inquietação muito mais profunda e, vejam só, ao menos do meu ponto de vista, muito mais prática: o que alguém ganha em odiar e se definir como inimigo?
Talvez um ganho imediato seja a tristeza.
Outra régua é a que mede o desespero, o mau humor e a chatice.
Proposta final para aqueles que se dizem inimigos (meus, ou de qualquer um): seja menos chato! Dê o direito a si mesmo de ser feliz. Ocupe-se de construir algo interessante e oferecer ao mundo boas obras. Vá fazer outra coisa.
E a recomendação geral para você lidar com os seus inimigos, sugiro que seja assim: façam o que fizerem, continue a fazer o que faz - cada vez mais, cada vez melhor, e mostrando ainda mais. Afirme-se e expresse sua vontade no mundo.
E, claro, temos todos um ponto em comum, Plutarco, Gracián, Schopenhauer e eu: a vida real tem dessas coisas - é melhor aceitar e aproveitar-se para avançar. Entre ganhos e perdas, a vitória maior é sempre o aprendizado.




