Estratégia como Jornada Contínua
Substitua o antigo planejamento estratégico por uma nova e mais ágil abordagem.
Há cerca de oito anos deixei de utilizar as velhas ferramentas. Criamos nossa própria metodologia baseada em visual thinking, agilidade e métodos de colaboração para engajar o maior número de pessoas possíveis no processo estratégico. Atendemos +80 organizações no Brasil e algumas fora do país. Publicamos dois livros “abrindo” a metodologia. A Stratega converteu-se numa típica boutique de consultoria servindo clientes de médio porte (receita em torno de R$ 1 bi), empresas de dono, usualmente com operação industrial. O discurso tem sido “substitua o velho planejamento eventual por uma abordagem de estratégia como jornada contínua". E tem dado muito certo.
Combinando Labs (presenciais) e Sprints (online) montamos uma primeira Jornada Estratégica que produz os entregáveis necessários para compor um sistema de trabalho que permitirá, uma vez que esteja montado, fazer da estratégia uma coisa dinâmica, viva, sempre em movimento. Uma primeira jornada pode ser percorrida de três a cinco meses, mas na medida em que repetimos, este intervalo cai para 45 dias e logo para algumas semanas. Uma vez treinados e acostumados com a nova linguagem, fica tudo muito rápido.
A jornada sempre obedece a 3 Es - Entender, Escolher, Executar. Inevitavelmente teremos de atravessar cada uma dessas fases. O charme está em como fazer isso.
Buscamos novos insights, identificando as melhores oportunidades para o negócio; construimos Domínios Estratégicos guiados por perguntas-chave que definem a narrativa para orientar as pessoas, alocar os recursos, planejar as atividades, definir o orçamento etc. E, por fim, colocamos a estratégia no tempo, elaborando roadmaps com iniciativas de curto, médio, longo prazos. Mas este processo deve ser iterativo. Significa que não podemos percorre-lo uma vez só, como uma rota linear. É fundamental trabalhar com “idas e voltas” e repeti-lo por completo várias vezes, tornando a organização responsiva às mudanças do mercado e pró-ativa para inovar na criação, entrega e captura de valor.
A chave para desempenhar bem essas jornadas pode ser descrita mediante alguns outros verbos com a letra E:
Explorar: não basta analisar dados (com ou seu IA, não importa) e compreender o contexto. Estratégia tem a ver com o futuro, portanto, é mais importante imaginação do que análise.
Emergir: além de deliberar e decidir quais oportunidades vamos perseguir e em quais vantagens competitivas vamos fazer nossas apostas, devemos também criar um ambiente favorável à emergência constante de novas estratégias. E isso é mais difícil do que parece.
Experimentar: assim como já se aceitam os métodos ágeis para a gestão de projetos, teríamos de implementar a agilidade no âmbito do portfolio como um todo. Desafiador! Mas não é impossível.
Engajar: o máximo de pessoas possível; não significa “todo mundo”. Por alguns motivos (sigilo, competência, predisposição, responsabilização, entre outros) não é sequer recomendado envolver a todos. Mas nossa experiência mostrou que a cada jornada se pode aumentar o número de participantes. E cada uma das três fases tem os seus momentos mais adequados para isso.
Além de “turbinar” o processo com estes novos verbos (agora são 7 Es, sim, aquele número mágico) aplicamos certas técnicas - Lentes, Estratagemas, Dispositivos - desenvolvidas pela Stratega nesses últimos anos que estimulam e orientam o pensamento estratégico. Um dos feedbacks mais legais que temos recebido é que a metodologia ajuda a pensar estrategicamente.
Isso me leva a comentar sobre um outro aspecto da estratégia como jornada contínua. É preciso formar estrategistas por toda a organização. É óbvio que o C-level será o principal responsável pela elaboração do Portfólio Estratégico. É certo que o Board vai ter de avaliar, propor, validar e aprovar a Bússola Estratégica. Mas ainda assim, toda a dinâmica se enriquece quando há mais e mais colaboradores compartilhando a linguagem e ajudando a responder “Onde jogar", “Como vencer", “Por quê", “Para quê", etc. A experiência comprova os ganhos no processo e no conteúdo dos entregáveis. Além disso, o comprometimento com as entregas também fica maior.
Estratégia deve ser algo estimulante e divertido, sem deixar a seriedade e o compromisso que ela representa. As pessoas têm de querer pensar estratégia e têm de se querer fazer estratégia.
Outra dica: pare de separar estratégia de execução. Tão feio quanto insistir no planejamento estratégico (sabido oxímoro) é não ver que os estrategistas devem se responsabilizar tanto pela formulação quanto pela execução. Podemos aceitar que há um momento mais de “pensar” e outro mais de “fazer", mas tudo isso deve ser unificado numa abordagem integrada.

