Hoje cedo li a monografia de um amigo húngaro (sim, tenho amigos em vários países) que é historiador e que mencionava a já famosa passagem de Aristóteles na sua Poética em que diz que "a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a história". Claro que meu querido amigo argumentava que a história é também tão filosófica e elevada (philosophóteron kai spoudaióteron) quanto a poesia - coisa que estamos de acordo.
Mas, para variar, voltei-me para a estratégia.
Sempre digo que estratégia é uma história de futuro. Como uma “teoria da vitória” a estratégia expressa-se como uma narrativa do que queremos que aconteça, de acordo aos nossos objetivos e aspirações. Das muitas possibilidades que se abrem diante de nós, imaginamos e definimos os caminhos para que se realize o futuro desejado.
Em meio a premissas, riscos, apostas, trade-offs etc. vamos vivendo nossa vocação de estrategistas, sempre flertando com o futuro.
É verdade também o que Henry Mintzberg mostrou de que às vezes a estratégia é mais um emergente padrão de múltiplas decisões ao longo do tempo. Neste sentido, estaríamos narrando a história dos êxitos (entre erros e acertos, aprendizado e adaptações) olhando para trás. A estratégia seria percebida pelo rastro que deixa.
Estudiosos da disciplina sempre recorrem a clássicos como Tucídides para extrair lições antigas que podem ser aplicadas agora. E eu sou um deles.
Entusiastas da inovação preferem buscar novas lentes para imaginar coisas diferentes, impensadas. Tento fazer isso com meus clientes.
O mesmo Mintzberg, inteligente que é, não opõe as duas versões, de um plano de futuro e de um padrão no passado. São complementares. Aliás, adiciona outras três - perspectiva, posição e ploy (artimanha), compondo os seus 5 Ps pata definir a nossa disciplina.
Anyway, para além da ambígua questão e do óbvio valor que ambas facetas têm, a estratégia como narrativa ou como poesia me parece um pouco mais fiel ao exercício do pensamento estratégico. Com todo respeito à Mintzberg (e ao meu amigo húngaro), atraio-me mais para o flerte com o futuro do que o diálogo com o passado. Sou um amante da história e reconheço o seu valor para a aprendizagem e a educação, mas do ponto de vista do trabalho do estrategista, acho que o esforço consciente para vencer inclina-se um pouco mais para as novas possibilidades do que para as velhas lições.
Meu avaliação final é que seria 60% poesia e 40% história. Mas é só uma opinião…
E qual é a sua opinião? Estratégia é mais história ou mais poesia?
Para ser mais fiel ao argumento de Aristóteles, vale citar todo o trecho:
“É evidente, pelo que foi dito, também isto: não é função do poeta dizer o que aconteceu, mas aquilo que poderia acontecer, isto é, o possível segundo o verosímil ou o necessário.
Com efeito, o historiador e o poeta não diferem por falarem em verso ou sem verso — pois seria possível colocar os escritos de Heródoto em versos, e eles não seriam menos uma história, com metro ou sem metro —, mas diferem nisto: um diz o que aconteceu, o outro aquilo que poderia acontecer.
Por isso, a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a história; pois a poesia diz sobretudo o universal, enquanto a história diz o particular.
E o universal é isto: que tipo de coisa é provável ou necessária que determinado tipo de pessoa diga ou faça; é isso que a poesia procura, embora atribua nomes às personagens.”
Poética (1451a36–b11)

