“Não há nada de extraordinário, portanto, ou incompatível com a natureza humana no que fizemos…”
Tucídides - História da Guerra do Peloponeso
Tucídides menciona uma tripartite motivação para a guerra entre Atenas e Esparta. Podemos levar este constructo para o mundo dos negócios; uma verdadeira guerra, nem sempre contra os concorrentes, às vezes contra as circunstâncias institucionais desfavoráveis (belo eufemismo, não?).
Estratégia existe porque nunca estamos satisfeitos. Se fosse o caso, seja por uma plenitude na situação atual ou por falta de interesse em uma nova situação, a intenção de movimento que ontologicamente caracteriza a estratégia, simplesmente não existiria.
Mas existe. E a intenção de movimento tem, se acompanharmos as reflexões de Tucídides, três raízes principais - Interesse, Temor, Honra - que ele chama de “os motivos mais fortes".
Interesse pode ser ganância, ambição, aspirações. Impelem a gente a buscar uma condição diferente, conformando uma visão de futuro que dirige os esforços e orienta a alocação dos recursos.
Em uma empresa, são os objetivos de aumento da receita, ganhos de rentabilidade, aumento do market share etc.
Para o indivíduo, são os sonhos de realização pessoal e de crescimento profissional, sem excluir as metas de maior remuneração e aumento do patrimônio.
Temor é palavra forte, mas real. As dores e o conjunto de problemas complexos que “pesam” sobre os ombros estimulam-nos a fazer estratégia. Queremos mudar, sair da pressão, resolver as angústias.
Numa empresa, a forte concorrência, os novos entrantes, o alto custo de capital, o endividamento descontrolado, entre outras coisas, servem de exemplos.
No pessoal, são todos nossos temores de saúde, segurança, sobrevivência, aceitação e pertencimento.
Honra seria a mais nobre e bela motivação. Por honra entendo o sentimento de dever, daquilo que deve ser feito em coerência com o que somos - nossos valores e prioridades; nossa axiologia.
A organização teria aqui a responsabilidade por sua própria identidade. Preservar o DNA ao longo do tempo, garantir que os princípios éticos sejam respeitados por todos os stakeholders, fazer cumprir seu propósito e sua missão original, expressar suas capacidades e entregar valor - econômico e em suas múltiplas outras formas - para o mercado e a sociedade.
A pessoa tem também uma identidade interior e mais verdadeira, o indivíduo mesmo (que não se divide), cuja integridade é testada nas pressões do dia-a-dia e nas tentações da imoralidade. Saber quem somos e o que se espera de nós é fundamental; poder expressar-se e contribuir com o mundo é magistral!
Enfim, os motivos mais fortes para a estratégia seriam esses três, além de muitos outros menores que se somam à complexa teia da vida - coletiva ou individual.
Como sou daqueles que vêem o ser humano em sua ultérrima realidade como essencialmente bom e altruísta, a honra poderia, acredito, guiar nossos passos com mais acurácia do que o medo e a ganância.
Aliás, Ketan Patel diz algo a respeito que também merece nossa reflexão:
“O medo e a ganância são a raiz da maior parte dos comportamentos e, por conseguinte, são a raiz das maioria das estratégias. A via do medo conduz à ira, e daí ao ódio. A vida ganância conduz à cupidez, e daí à malícia”.
E se pudéssemos corrigir e reorientar o comportamento? E se fôssemos capazes de produzir mais estratégias cuja raiz fosse a honra? Empresas mais valorosas (com maior valuation?) e pessoas mais dignas (com melhor reputação?).
Idealismo, sem dúvida. E para dar certo precisa estar associado a uma boa dose de praticidade. O melhor dos idealistas não é o que somente sonha. É o que sonha e se atreve a fazer. Vamos juntos nessa direção?

