"…falseia nossa imaginação, mais exigente de ação que de ciência, ainda que ignoremos aonde nos leva".
Montaigne
Todo processo estratégico principia por tentar entender o que está acontecendo. Daí a definição mais ou menos clara do desafio. Digo isso à maneira de Richard Rumelt, quem gosta de ver a coisa toda como solução de problemas. Problem-solving approach, como ele mesmo diz.
Para entender uma situação naturalmente utilizamos nossa capacidade analítica unida a ciclos de síntese. Ou seja, ‘quebramos’ as coisas em partes menores para tentar ver com clareza os detalhes; logo, reconfiguramos tudo junto, procurando dar sentido ao todo. Análise e síntese seguem mediante o uso do raciocínio.
Raciocinar é dedutivo, indutivo ou abdutivo. No primeiro caso, o esforço parte do geral para os particulares, na medida em que as premissas possam conter a conclusão. Mas como nem sempre funciona, ou simplesmente não conseguimos partir de premissas gerais, muito do trabalho acaba se combinando com a indução, que é o meio inverso: observamos os fatos e tentamos generalizar para alguma regra ou parâmetro que nos permita compreender o que está acontecendo. E ainda utilizamos a abdução. Formulamos hipóteses com a informação disponível e as testamos. Tudo isso num feedback loop extenuante.
Nós, estrategistas, tentamos deduzir, acabamos tendo de induzir, e abduzimos toda hora.
Contudo, existe na mente do estrategista uma faculdade que vai além do raciocínio: a imaginação. É imaginando que exploramos o futuro, o desconhecido, o possível. Saímos de vez do mundo da necessidade para entrar no universo do contingente. E isso é pura estratégia.
Quando surgem os paradoxos, o dilema, a incerteza, o complexo, o estrategista brinda o pensamento com metáforas, analogias e uma boa dose de poesia e bom humor. (Se você está com dificuldades de lembrar disso nas sessões executivas em que participou, talvez não tenha vivido muito de verdadeira estratégia nelas).
Muito antes de Martin Reeves escrever sobre ela, a imaginação já era indicada como o diferencial competitivo, a grande vantagem dos Hominídeos. Vemos em Cassirer, Eliade, Durand e Corbin, a linha antropológica do século XX que destacou o ser humano do reino animal, a potência que temos como indivíduos que têm capacidade de simbolizar.
A criatividade é viabilizada pelo poder imaginativo. Inventamos, mesclamos, misturamos, combinamos coisas de um modo extravagante, sem nenhum escrúpulo.
Elaborar novas possibilidades, inovar, prospectar cenários futuros, identificar oportunidades, tudo isso provém do gênio estratégico e ele se abre quando extrapola o raciocínio.
Entendendo (racional) e explorando (imaginal) construímos um consistente conjunto de opções estratégicas. Segue-se a isso, claro, a parte mais densa: fazer escolhas.
E por último, já que começamos citando um trecho de um Ensaio de Montaigne (Dos Nossos Ódios e Afeições), fica sempre a ressalva: cuidado com “sair fazendo" - inconscientemente, sem pensar. Uma boa estratégia não garante a vitória, mas aumenta a sua probabilidade. Racionalmente, este argumento é imbatível - um misto de dedução, indução e abdução. Graças à imaginação.

