Dentro de cada ser humano jaz um gênio - um daemon, diria Sócrates e os seus contemporâneos. Digamos que na essência de cada indivíduo há um ser que observa, intui, sugere; como uma voz silenciosa no íntimo de cada um.
Com o advento e o desenvolvimento das pesquisas sobre a inteligência no Século XX, desde Binet até Gardner, ficou patente que o potencial humano vai muito além do suspeitado. Os testes de QI evoluírem para a teoria das inteligências múltiplas.
Um aspecto dessa multiplicidade é justamente a inteligência estratégica. Interdisciplinar, ela atravessa diferentes campos do saber para entender, escolher e executar. O processo, que é iterativo, naturalmente envolve diferentes modos de pensamento - do raciocínio lógico à imaginação simbólica, do esforço interpretativo (hermenêutica) à dinâmica dialética.
Mais do que isso, atrevo-me a dizer que a inteligência estratégica é transdisciplinar, propiciando um novo universo cognitivo, para além das disciplinas particulares. Utiliza o que tem a disposição como meios para entender o contexto e explorar oportunidades, fazer escolhas em meio à incerteza, executando e experimentando na medida em que o aprendizado reforça o ciclo num processo que se renova, mas nunca termina.
A ontologia da estratégia indica um ser de relação com intenção de movimento. Assim, quando partimos para a sua epistemologia, tentando superar as opiniões e construir conhecimento, podemos sugerir que ela opera na relação espacial e temporal, bem como no esforço consciente para realizar algo.
Lembrando: é ser de relação pelos diferentes agentes que competem e/ou cooperam no espaço. Também é relacional entre a situação atual e os futuros possíveis. Enfim, tem intenção de movimento para manifestar um potencial.
Há três eixos, portanto, para treinar e desenvolver o gênio estratégico:
Espaço - interface
Tempo - tensão
Consciência - movimento
Ganhar inteligência estratégica requer maior domínio das interfaces - compreender os “jogos” e as suas regras, saber ler o comportamento dos “jogadores”, seus interesses e os riscos implicados para cada um.
Igualmente, requer mais domínio sobre a tensão entre o futuro desejado e as disponibilidades do presente - identificar os reais desafios, priorizar, visualizar possibilidades, definir aspirações e objetivos.
Por fim, o gênio estrategista deve evoluir na sua capacidade de sonhar e realizar, conceber e fazer acontecer, abstrair e contextualizar - trata-se de um eixo “vertical”, este terceiro, que engloba o espaço-tempo, lhe dando vida, mas que também reúne para si mesmo algumas características próprias: por exemplo, o estrategista precisa lidar consigo mesmo, antes de tudo.
Desses três eixos derivam técnicas filosóficas: concentração, reflexão, meditação, entre outras.
Já Platão, na República, propõe uma educação propícia para desenvolver o gênio estratégico de cada ser humano. Combinando música e ginástica, estudando as ciências e exercitando-se na dialética, o sábio da Academia queria formar os seus líderes.
Não seria o caso de voltarmos a sonhar com grandes estrategistas preparados minuciosamente para fazer do mundo um lugar mais interessante e justo? Afinal, se refletirmos sobre o que significa vencer, veremos que as estratégias contemporâneas não têm sido muito elegantes… Para dizer o mínimo. Na real, acho que o gênio está dormindo. Acordá-lo, vai demandar um trabalho educacional sério e de longo prazo.

