Muito se tem dito sobre a distinção entre estratégia e planejamento. Darei uma contribuição antropológica sobre o tema.
Cada cultura se relaciona com o mundo à sua maneira e podemos abordar, dentre outras formas, a representação da realidade mediante o tempo e o espaço. O mundo é percebido no tempo e no espaço. E interagimos com o mundo no tempo e no espaço.
Descartes é famoso pelos eixos de coordenadas, mas devemos buscar em Kant, e depois em Schopenhauer, como tempo e espaço servem de coordenadas para refletirmos sobre os fenômenos a posteriori (conhecimento do mundo através dos nossos sentidos). Na verdade, Kant afirma que tempo e espaço são condições percebidas a priori (independente dos sentidos, uma realidade interna); e Schopenhauer mostra como o ser em si (Vontade) se apresenta como um fenômeno manifestando-se no tempo e no espaço, de onde decorre nossa Representação do mundo.
É claro que cada sujeito tem o seu modo de perceber e de interagir. Mas há também alguns padrões ou semelhanças nos grupos humanos.
Os clássicos estudos de Hofestede, com suas seis dimensões, bem como o trabalho de Edward Hall, sobre tempo policrônico e monocrônico, dão algumas bases para fundamentar o assunto cientificamente.
Mas vamos à vivência no dia-a-dia do estrategista…
Ao dedicar-se a entender o que está acontecendo, explorar possibilidades, fazer escolhas (sempre atento à emergência de novas ideias), executar/experimentar, tudo isso em meio à complexidade da vida de uma organização e à incerteza do mercado e da sociedade, o estrategista lida com um tempo cíclico (policrônico) e um espaço opaco (alto contexto). A tensão do tempo é recursiva; o trabalho tem que ser iterativo. As interfaces no espaço são recíprocas; a tarefa é obrigatoriamente dinâmica.
Para o estrategista, tempo e espaço se revelam aos poucos, na medida em que avança. E nunca se revelam completamente, pois não cessam de brotar novas tensões e novas interfaces.
Já o planejador vive num mundo diferente. Seu universo é complicado, mas não é complexo. É preciso, sim, uma boa dose de análise para compreender as relações de causa e efeito - mas elas são compreensíveis. E não há muitas surpresas, pois o sistema complicado não gera atributos novos. Não emerge dele algo diferente. Ao longo do tempo, ele permanece mais ou menos o mesmo (monocrônico, uma coisa deois da outra). Através do espaço, ele não se reconfigura (baixo contexto, as coisas estão mais claras).
O movimento do estrategista precisa ser criativo e estará repleto de riscos. O movimento do planejador tem de ser metódico e estará cheio de detalhes.
É óbvio que uma empresa precisa de estratégia e também precisa de planejamento. Mas saibamos distinguir os dois, pois cada qual tem o seu valor.
Ouso dizer, no entanto, que uma empresa nunca morre por mal planejamento - ela pode ter problemas, sim: baixa eficiência, pouca otimização, muitas perdas etc. Agora, vejam, uma empresa sem boa estratégia tem alta probabilidade de degenerar: sem direção, poucas oportunidades, medo de experimentar etc.
Há tempo para planejar e tempo para agir. Mas é sempre tempo de fazer estratégia.

